A condição da mulher em ‘Ecos da Floresta’
Obra americana desafia os papéis de gênero, mas desenrola-se para o improvável
Liz Moore é uma autora aclamada norte-americana que mora na Filadélfia, mas que chega pela primeira vez no Brasil pela tradução de God of the Woods, em Ecos da Floresta, da Editora Harper Collins e Tag Inéditos. Ambientado pela memória da autora nas montanhas Adirondack, esse thriller inédito inicia-se a partir do desaparecimento de uma criança de 13 anos, Barbara Van Laar, filha de um banqueiro, dono da Reserva e do Acampamento Emerson em 1975. A partir da história, a autora tematiza a desigualdade de gênero, a exploração ambiental, privilégios de classe e o direito à propriedade.
Barbara odeia a família. A mãe, Alice, sente um vazio pelo sumiço, 14 anos atrás, de seu primogênito, Bear Van Laar. E o pai, Peter Van Laar III, expressa-se com a obrigação antes do sentimento. A solidão na casa a engolia de dentro para fora. Então, ela decide fazer parte do Acampamento e cria amizade com Tracy, uma menina que sofre de poucos amigos.
Para contar a narrativa, Moore divide a obra em 7 capítulos: “Barbara”, “Bear”, “Ao se perder”, “Visitantes”, “Encontrada”, “Sobrevivência” e “Autoconfiança”. O narrador observador relata a partir da visão dos personagens: Louise, Tracy, Alice, Judyta, Carl e Jacob. Alguns, mais que outros, nos dão mais dicas sobre o paradeiro da garota desaparecida. Mas é fato que este tipo de olhar cria uma tensão inesperada para contar a história, em que há-se diversos suspeitos sobre os dois crimes cometidos.
A autora também possui uma visão mais atenta à voz das mulheres: Louise, a monitora de 23 anos que trabalha arduamente todos os dias para se sustentar, com um namorado abusador e violento; Alice, a mãe que perdera já dois filhos, forçada a um casamento alienante e reduzido; Judyta, a investigadora espirituosa, mas menosprezada pela sua própria equipe de policiais homens. A partir da análise sobre a vida dessas mulheres, denota-se a preocupação da autora com a injustiça e a violência, física e psicológica, que sofrem, uma condição inerente em todas.
Por outro lado, todos os homens deste livro são malditos. Sim. Eles corrompem, maltratam, violentam e mentem. Mentem bastante.

“Ao se perder, sente e grite”
Moore não permite que os leitores se percam na história, isto pode ser uma vantagem ou desvantagem. Em um thriller, todas as ações do personagem importam para a compreensão total do mistério. O surpreendente é as surpresas ao longo do caminho para entender o que aconteceu. Entre diversos temas, a autora também explora questões sobre direito à terra e desigualdade social.
A família Van Laar – mesmo que vazia por dentro – é mais do que rica por fora. O primeiro Peter criou um banco que se tornou herança de gerações. E, com a riqueza, esperava-se que detê-se uma propriedade extensa, com uma casa encomendada de outro país. A ideia do acampamento não era sua, mas foi recebida com braços abertos para a educação ambiental de diversas crianças, essas apenas ricas.
Ao longo de toda a obra, Liz Moore remete à Emílio ou Da Educação (1762), de Jean-Jacques Rousseau, seja intencional ou não. Como o filósofo sugere, as crianças devem crescer afastadas das amarras sociais para conservar a sua bondade. Ele reforça que o homem não é mau por natureza, e sim, que a sociedade é aquela que o corrompe. Se inserida em um sistema educacional funcional, o “homem natural” seria capaz de viver na corrupção.
A educação ambiental parecia ser a solução para a proposta de Rousseau. E é exatamente nesta filosofia antiga e ultrapassada que Moore conclui sua narrativa. O destino de Barbara é este. Na vida ou na morte – spoilers à parte –, a criança encontra na floresta um refúgio acolhedor, mesmo depois das árvores terem tirado o seu irmão. Ela é um símbolo de segundas-chances, seja de seus pais, da condição de mulher ou da vida fora de sociedade.
Por fim, depreende-se de Ecos da Floresta que talvez que seja melhor evitar homens e entender que a mata tenha mais o que nos ensinar do que a nós mesmos.
Regina Lemmi é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

